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O sonho paraguaio virou pesadelo? Crise bancária, impeachment e brasileiros no meio do terremoto político
O país que era vendido como o novo paraíso dos impostos baixos e da prosperidade agora enfrenta uma crise bancária e política. Peña tenta deixar o cargo, o Senado julga seu impeachment e milhares de brasileiros descobrem que atravessar a fronteira não significava entrar em um conto de fadas econômico. Afinal, até o paraíso tem suas contas para pagar.
Por Tendência
Publicado em 06/11/2026 16:29 • Atualizado 06/11/2026 16:44
Internacional

Colapso do Ueno Bank, crise política e processo de impeachment contra Santiago Peña abalam a imagem de estabilidade do país. Brasileiros atraídos por impostos menores, custo de vida reduzido e oportunidades de negócios agora acompanham com preocupação o futuro da economia paraguaia.

O Paraguai enfrenta uma das mais graves crises políticas e financeiras de sua história recente. O que até pouco tempo era apresentado por muitos como um exemplo de crescimento econômico, liberdade para empreender e alternativa ao ambiente econômico brasileiro agora está diante de uma realidade bastante diferente.

A crise provocada pelo colapso do Ueno Bank atingiu milhões de correntistas, desencadeou protestos populares e colocou o presidente Santiago Peña no centro de um processo de impeachment que ameaça encerrar antecipadamente seu governo.

O episódio também levanta uma questão importante para o Brasil: o que acontecerá com os milhares de brasileiros que decidiram atravessar a fronteira, mudar de país, investir suas economias e construir uma nova vida no Paraguai?

Segundo estimativas do Itamaraty, aproximadamente 270 mil brasileiros vivem no país vizinho. São trabalhadores, empresários, estudantes, aposentados, famílias e investidores que mantêm relações econômicas e sociais com o Brasil.

Brasileiros foram atraídos por impostos menores e oportunidades

O movimento de brasileiros em direção ao Paraguai não começou agora. Entretanto, ganhou força em 2026, impulsionado por uma combinação de fatores econômicos e pela divulgação de experiências positivas nas redes sociais.

Entre as principais motivações estão:

  • Carga tributária menor: o imposto de renda pessoal paraguaio tem alíquota de até 10%, enquanto a tabela brasileira chega a 27,5%.

  • Custo de vida: moradia, energia e determinados serviços podem representar despesas menores, dependendo da cidade e do padrão de consumo.

  • Empreendedorismo: empresários brasileiros foram atraídos pelo regime de maquilas, por incentivos fiscais e por custos industriais competitivos.

  • Estudos: milhares de brasileiros procuram universidades paraguaias, especialmente cursos de Medicina, devido às mensalidades mais acessíveis.

  • Aposentadoria e trabalho remoto: pessoas com renda própria passaram a considerar o país uma alternativa para viver com despesas menores.

  • Busca por segurança econômica: parte dos brasileiros procurou um ambiente que considerava mais favorável aos investimentos e à atividade empresarial.

Uma reportagem publicada pelo UOL em maio de 2026 apontou que o Paraguai recebeu 18.071 solicitações de residência de estrangeiros apenas no primeiro trimestre daquele ano, crescimento de 85% em comparação com o mesmo período de 2025. 

Mas existe uma diferença importante entre encontrar oportunidades em outro país e acreditar que essas oportunidades representam uma garantia de estabilidade.

A crise atual demonstra que impostos baixos, energia barata e incentivos empresariais não eliminam os riscos bancários, políticos e institucionais.

Ueno Bank: o problema que transformou uma crise financeira em crise de governo

O centro da turbulência é o Ueno Bank, instituição financeira digital que passou a enfrentar problemas graves de solvência.

Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai interveio na instituição após identificar que seu índice de solvência havia caído para 5,56%, muito abaixo do mínimo regulatório de 12%.

A intervenção atingiu aproximadamente 3 milhões de clientes, que ficaram temporariamente sem acesso aos seus recursos e serviços bancários.

O banco também administrava recursos públicos superiores a US$ 850 milhões, incluindo valores relacionados à previdência.

A situação ganhou dimensão política porque Santiago Peña havia sido acionista do grupo empresarial controlador do banco até 2025.

Além disso, a nomeação de um ex-executivo do conglomerado para comandar o Banco Central passou a integrar os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.

A oposição acusa o governo de falhas de fiscalização, conflitos de interesses e problemas na administração dos recursos públicos. São acusações que precisam ser apuradas pelas autoridades competentes, e Peña tem direito de apresentar sua defesa.

O episódio deixou de ser apenas uma discussão sobre a situação de uma instituição financeira. Passou a envolver a confiança da população no sistema bancário e nas próprias instituições do Estado. 

Santiago Peña tentou renunciar, mas não conseguiu encerrar a crise

Na quinta-feira, 5 de novembro, Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência, alegando que pretendia preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.

Entretanto, sua saída não foi simplesmente formalizada.

O Congresso paraguaio colocou o pedido de renúncia em espera para permitir o andamento do processo de impeachment. A Câmara dos Deputados aprovou a abertura do procedimento, inclusive com votos de integrantes do próprio partido governista.

Nesta sexta-feira, 6 de novembro, o Senado deu continuidade ao julgamento político.

A defesa de Peña solicitou mais 72 horas para preparar sua manifestação. O pedido foi rejeitado pelos senadores. Segundo as informações divulgadas pela Associated Press, o presidente deixou de comparecer à sessão de julgamento, enquanto seus advogados questionaram as condições oferecidas para sua defesa.

A eventual condenação exige 30 votos entre os 45 senadores. Portanto, até a divulgação das informações consultadas, não se deve confundir o início do julgamento com uma condenação definitiva. 

O vice-presidente Pedro Alliana é o nome previsto para assumir a Presidência em caso de saída definitiva de Peña.

O Paraguai poderia realmente se tornar uma potência econômica superior ao Brasil?

A crise também obriga a rever parte do discurso que ganhou força nos últimos anos, segundo o qual o Paraguai estaria se transformando em uma espécie de novo paraíso econômico da América do Sul.

É verdade que o país apresenta vantagens competitivas importantes. Tem uma estrutura tributária mais simples em determinados setores, energia abundante, incentivos à industrialização e oportunidades para empresas estrangeiras.

Entretanto, existe uma diferença enorme entre oferecer condições favoráveis aos investimentos e possuir uma economia capaz de competir, em dimensão absoluta, com uma das maiores economias do planeta.

O Brasil tem um mercado consumidor gigantesco, uma estrutura industrial diversificada, produção agropecuária de escala mundial, sistema financeiro complexo e capacidade de investimento muito superior em termos absolutos.

O Paraguai pode crescer, modernizar sua economia e conquistar espaço em determinados setores. Não existe, porém, fundamento para transformar vantagens tributárias em uma promessa de que um país de dimensões muito menores poderá simplesmente superar uma economia como a brasileira.

O desenvolvimento econômico exige muito mais do que impostos baixos: exige instituições confiáveis, fiscalização independente, segurança jurídica, estabilidade financeira e proteção ao dinheiro da população.

E é justamente nesses pontos que a atual crise paraguaia produz questionamentos.

A pergunta sobre os aliados internacionais de Peña

Outro aspecto que merece reflexão é o ambiente político internacional no qual Santiago Peña construiu suas relações.

O presidente paraguaio manteve aproximação com lideranças conservadoras internacionais e com setores políticos que defendem modelos de redução do Estado, desregulamentação econômica e incentivos ao capital privado.

Diante da crise, surge uma pergunta política: Peña acreditava que suas alianças internacionais, especialmente sua proximidade com lideranças dos Estados Unidos, poderiam oferecer sustentação política em um momento de dificuldade interna?

É importante ressaltar que não há comprovação de que ele tenha baseado sua decisão de renunciar em uma promessa de proteção externa.

Mas existe uma realidade que não pode ser ignorada: nenhuma aliança internacional substitui a confiança da população, a fiscalização das instituições e a responsabilidade de um governo diante de uma crise nacional.

Mesmo que um presidente mantenha relações próximas com Washington, são as instituições paraguaias que decidem seu futuro político.

A soberania do Paraguai não está nas mãos de governos estrangeiros.

O que acontecerá com os brasileiros que atravessaram a fronteira?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para o Brasil.

Os aproximadamente 270 mil brasileiros que vivem no Paraguai não formam um grupo homogêneo. Muitos possuem propriedades, empresas, empregos, famílias e investimentos construídos ao longo de anos.

Outros chegaram recentemente, influenciados pelas oportunidades divulgadas nas redes sociais.

A preocupação é que uma crise bancária dessa dimensão provoque consequências que ultrapassem o sistema financeiro.

Entre os possíveis impactos estão:

  1. Dificuldades de movimentação financeira e acesso a depósitos.

  2. Redução da confiança de investidores estrangeiros.

  3. Adiamento de projetos empresariais e industriais.

  4. Problemas para empresas que dependem de crédito e pagamentos bancários.

  5. Incertezas para famílias que recebem salários ou mantêm economias no sistema financeiro paraguaio.

  6. Possíveis reflexos no comércio entre cidades brasileiras e paraguaias.

Nem todos esses efeitos estão confirmados para os brasileiros, mas representam riscos que precisam ser acompanhados.

O senador Nelsinho Trad, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado brasileiro, informou que acompanha os acontecimentos e pretende buscar informações junto ao Itamaraty e à Embaixada do Paraguai sobre a situação dos brasileiros residentes no país.

A crise paraguaia também é um alerta para o Brasil

O episódio deixa uma lição importante para quem acredita que o sucesso de uma economia pode ser medido exclusivamente pela quantidade de empresas que chegam ao país, pela redução de impostos ou pelo crescimento dos investimentos.

Uma economia precisa proteger seus cidadãos e garantir que o dinheiro depositado nos bancos esteja submetido a regras de fiscalização e mecanismos de segurança.

O caso do Ueno Bank demonstra como problemas em uma instituição financeira podem rapidamente se transformar em uma crise de confiança, atingir milhões de pessoas e colocar um governo inteiro em dificuldades.

Para os brasileiros que atravessaram a fronteira acreditando encontrar estabilidade, oportunidades e um ambiente econômico mais seguro, o momento é de cautela.

Não significa que o Paraguai tenha perdido todas as suas vantagens ou que os investimentos brasileiros estejam automaticamente comprometidos. Significa que a realidade exige uma avaliação mais cuidadosa, longe das promessas de prosperidade sem riscos.

O Paraguai continua sendo um país de oportunidades, mas a crise atual demonstra que nenhuma economia está protegida quando a confiança no sistema financeiro e nas instituições políticas é colocada em dúvida.

E, enquanto Santiago Peña enfrenta seu julgamento político, milhares de brasileiros que escolheram o país vizinho acompanham os acontecimentos com uma pergunta inevitável: a promessa de uma nova vida do outro lado da fronteira continuará de pé?

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