Economista, ex-ministro da Fazenda, funcionário do Banco Central, integrante de conselhos de instituições financeiras e ex-acionista de um grupo empresarial ligado ao setor bancário. A trajetória de Santiago Peña, que chegou à Presidência do Paraguai em 2023, passou a ser questionada após a crise do Ueno Bank. As relações entre política, negócios e sistema financeiro estão no centro das acusações que provocaram sua queda.
A crise política que atingiu o Paraguai nesta quinta-feira, 5 de novembro de 2026, representa um dos episódios mais graves da história política recente do país. Santiago Peña anunciou sua renúncia à Presidência enquanto a Câmara dos Deputados discutia um pedido de impeachment contra ele.
Mesmo depois da renúncia, os deputados aprovaram por unanimidade a acusação política: foram 78 votos favoráveis, e o processo foi encaminhado ao Senado, que deverá decidir sobre sua continuidade.
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O episódio tem como principal pano de fundo a crise do Ueno Bank, instituição financeira que cresceu rapidamente e chegou a atender aproximadamente 2,9 milhões de clientes em um país de cerca de 6,1 milhões de habitantes.
Mas quem é Santiago Peña? Como construiu sua carreira? Qual era sua relação com os bancos e quais acusações envolvem seu patrimônio e sua atuação política?
1. Quem é Santiago Peña
Santiago Peña
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Nascimento: 16 de novembro de 1978.
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Naturalidade: Assunção, Paraguai.
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Formação: Economia.
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Partido: Partido Colorado.
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Presidência: agosto de 2023 a novembro de 2026, após a renúncia anunciada.
Peña não surgiu originalmente como um político tradicional. Sua formação é ligada à economia e à administração financeira.
Estudou Economia na Universidade Católica de Assunção e concluiu mestrado em Administração Pública na Universidade Columbia, nos Estados Unidos.
Em 2000, iniciou sua trajetória profissional no Banco Central do Paraguai. Posteriormente, trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, onde integrou equipes de análise econômica e participou de atividades relacionadas a políticas financeiras.
Em 2012, retornou ao Banco Central paraguaio, onde integrou o conselho da instituição.
Essa experiência técnica seria utilizada posteriormente para construir sua imagem política de economista e gestor.
2. A entrada na política e a relação com Horacio Cartes
A entrada de Peña no primeiro escalão da política aconteceu em janeiro de 2015, quando o então presidente Horacio Cartes o escolheu para comandar o Ministério da Fazenda.
A nomeação chamou atenção porque Peña não tinha uma trajetória partidária consolidada no Partido Colorado. Naquele momento, sua filiação era ao Partido Liberal Radical Autêntico.
Posteriormente, aproximou-se do Partido Colorado e passou a integrar o movimento político Honor Colorado, liderado por Cartes.
Em 2017, disputou a indicação presidencial do partido, mas perdeu para Mario Abdo Benítez.
Em 2022, conseguiu a candidatura presidencial e venceu as eleições gerais de abril de 2023, com aproximadamente 42,7% dos votos.
Sua ascensão política foi fortemente associada ao apoio de Horacio Cartes, empresário e ex-presidente paraguaio que manteve influência importante dentro do Partido Colorado.
A relação entre os dois tornou-se um dos principais elementos de análise da estrutura de poder do governo Peña.
3. A relação com os bancos: Banco Basa e Ueno Bank
Esta é uma das partes mais importantes para compreender a crise que levou à renúncia.
Peña teve relações profissionais e empresariais com instituições financeiras ligadas ao círculo empresarial de Horacio Cartes e também com o grupo controlador do Ueno Bank.
Banco Basa
Depois de deixar o governo em 2017, Peña voltou ao setor privado e integrou o conselho de administração do Banco Basa, instituição pertencente ao Grupo Cartes.
O banco está ligado à família de Horacio Cartes, que tem participação empresarial no setor financeiro.
Essa passagem reforçou a proximidade entre Peña e o grupo empresarial de seu principal padrinho político.
Ueno Bank
O caso Ueno é mais delicado.
Peña foi acionista da Ueno Holding, conglomerado empresarial que controlava negócios ligados ao banco. Ele vendeu sua participação em 2025, mas seus vínculos anteriores passaram a ser questionados durante a crise.
Os parlamentares que apresentaram o pedido de impeachment apontaram possíveis conflitos de interesses entre sua posição como antigo acionista e suas responsabilidades como presidente da República.
Também questionaram a atuação do governo em relação à instituição financeira e a concentração de recursos públicos no banco.
É importante distinguir: essas acusações fazem parte do processo político e não equivalem, por si só, a uma condenação judicial de Peña. 4. O que aconteceu com o Ueno Bank?
A crise financeira explodiu quando o Banco Central do Paraguai identificou problemas graves na situação patrimonial do Ueno Bank.
Em 3 de novembro, a autoridade monetária determinou o início de um procedimento de resolução da instituição, após identificar que seu índice de solvência havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação.
O banco atendia aproximadamente 2,9 milhões de clientes e possuía cerca de US$ 800 milhões em depósitos do setor público.
A crise provocou:
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Interrupção de serviços bancários, transferências e pagamentos.
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Dificuldades de acesso dos clientes às próprias contas.
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Protestos de correntistas, aposentados e trabalhadores.
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Questionamentos sobre os recursos públicos depositados na instituição.
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Prisões de executivos e investigações do Ministério Público.
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Insegurança sobre a situação financeira de empresas ligadas ao conglomerado.
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, as autoridades investigam operações de crédito consideradas problemáticas, empréstimos a empresas relacionadas aos controladores e possíveis irregularidades contábeis.
O Ministério Público também apresentou acusações contra dirigentes e pessoas ligadas à instituição. Essas investigações devem determinar as responsabilidades individuais.
5. Quais são as acusações contra Santiago Peña?
O pedido de impeachment aprovado pelos deputados apresenta diferentes questionamentos sobre a relação entre o governo e o sistema financeiro.
Entre os principais pontos estão:
Conflito de interesses: a antiga participação de Peña na Ueno Holding e sua relação com o conglomerado empresarial.
Recursos previdenciários: questionamentos sobre a concentração de recursos do Instituto de Previsión Social (IPS) no Ueno Bank e o respeito aos limites legais de aplicação.
Banco Central: críticas à nomeação de Carlos Carvallo, antigo dirigente da Financiera Ueno, para comandar o Banco Central do Paraguai.
Alterações legislativas: acusações de que Peña teria impulsionado mudanças na legislação sobre conflitos de interesses.
Possível favorecimento institucional: parlamentares questionam se a instituição recebeu tratamento diferenciado por parte do governo.
Esses pontos constam do documento de acusação apresentado à Câmara dos Deputados. A apuração das responsabilidades depende dos procedimentos políticos e judiciais correspondentes.
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6. Qual era o comportamento político de Peña?
Peña pertence ao Partido Colorado, uma das forças políticas mais tradicionais do Paraguai, historicamente associada ao conservadorismo e à direita.
Sua administração apresentou características como:
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Defesa de políticas econômicas favoráveis ao investimento privado.
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Busca de aproximação com investidores internacionais.
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Alinhamento diplomático com os Estados Unidos.
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Defesa de posições conservadoras em temas sociais.
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Manutenção de uma relação política estreita com Horacio Cartes.
Um episódio que também marcou sua trajetória foi a mudança de posicionamento sobre questões sociais. Em 2017, Peña demonstrou abertura ao debate sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo e aborto. Posteriormente, recuou diante das críticas de setores conservadores.
Durante sua Presidência, também recebeu críticas pela frequência de viagens internacionais e pela relação de dependência política atribuída a Cartes por seus adversários.
Peña, por sua vez, defendia que sua política externa e suas viagens buscavam atrair investimentos e ampliar a presença internacional do Paraguai.
7. Por que renunciou se o impeachment já estava em andamento?
A perda de sustentação política foi decisiva.
O movimento que inicialmente parecia concentrar-se na oposição ganhou força quando integrantes do próprio Partido Colorado passaram a apoiar o impeachment.
O próprio Horacio Cartes, que havia sido seu principal apoiador político, retirou seu respaldo e manifestou apoio ao processo.
Sem sustentação suficiente para permanecer no cargo, Peña anunciou sua renúncia.
Mesmo assim, os deputados decidiram prosseguir com a acusação.
A Constituição paraguaia estabelece um procedimento específico:
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A Câmara dos Deputados apresenta a acusação por maioria de dois terços.
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O Senado funciona como tribunal político.
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Os senadores precisam de dois terços dos votos para declarar a responsabilidade política e determinar a destituição.
A decisão da Câmara foi aprovada pelos 78 deputados presentes. O Senado passou a ter a responsabilidade de definir o encaminhamento do processo e os efeitos da renúncia.
O resultado também tem consequências para a situação jurídica futura de Peña, especialmente em relação à possibilidade de ocupar uma cadeira de senador vitalício, prevista para ex-presidentes paraguaios, e aos respectivos privilégios constitucionais.
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8. O que a queda de Peña representa para o Paraguai?
O episódio expõe uma questão importante para a democracia paraguaia: a relação entre poder político, grandes grupos empresariais, bancos e recursos públicos.
A crise não se limita à situação financeira de uma instituição. Ela envolve questionamentos sobre fiscalização bancária, proteção dos depositantes, gestão de recursos previdenciários e possíveis conflitos de interesses dentro do governo.
Também chama atenção o fato de que o mesmo grupo político que ajudou Peña a chegar à Presidência acabou retirando seu apoio quando a crise se aprofundou.
O desfecho dependerá das decisões do Senado, das investigações financeiras e da capacidade das autoridades de esclarecer o destino dos recursos e as responsabilidades dos envolvidos..
Um ponto central desta história: Santiago Peña construiu sua imagem pública como economista e especialista em finanças. Justamente por isso, a crise de uma instituição bancária com a qual manteve vínculos empresariais tornou-se um dos maiores problemas de sua trajetória política. É necessário, entretanto, separar os vínculos documentados das acusações ainda sujeitas à investigação e ao julgamento.