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CALOR EXTREMO TESTA OS LIMITES DA VIDA NA ÁFRICA E NA EUROPA
Dromedários com bolhas nas patas, animais sofrendo com o calor e incêndios devastadores revelam uma face cada vez mais severa dos extremos climáticos nos dois continentes
Por Tendência
Publicado em 03/08/2026 23:12
Internacional

 

O calor extremo deixou de ser apenas uma questão de desconforto ou de recordes registrados nos termômetros. Em diferentes regiões da África e da Europa, temperaturas elevadas, secura prolongada e ondas de calor estão pressionando pessoas, animais, agricultura, florestas e sistemas de emergência.

Na África, o problema assume uma dimensão particularmente dramática. O continente está aquecendo em ritmo superior à média global, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). O relatório mais recente da entidade aponta que a taxa de aquecimento africana desde 1991 é significativamente maior do que em períodos anteriores de 30 anos.

DROMEDÁRIOS TAMBÉM ESTÃO CHEGANDO AO LIMITE

A situação descrita por pastores e especialistas ouvidos pela BBC chama atenção justamente porque envolve um animal conhecido por sua extraordinária capacidade de sobreviver em ambientes áridos.

Os dromedários são biologicamente adaptados ao calor e à escassez de água. Conseguem suportar temperaturas elevadas e permanecer períodos consideráveis sem beber. Mas essa resistência não significa que sejam imunes aos extremos.

Relatos de pastores apontam animais apresentando bolhas nas patas, lesões e perda de pelo, sinais de que as condições ambientais podem estar ultrapassando os limites aos quais esses animais tradicionalmente se adaptaram.

O problema é ainda mais preocupante porque o calor não atua sozinho. Quando temperaturas extremas se combinam com falta de água, pastagens degradadas e solos excessivamente quentes, o impacto sobre os rebanhos aumenta.

Para milhões de famílias africanas que dependem da pecuária para alimentação e renda, a saúde dos animais também é uma questão econômica e de sobrevivência.

ÁFRICA ENFRENTA UMA CRISE CLIMÁTICA QUE VAI ALÉM DO CALOR

Os números da OMM ajudam a dimensionar o problema.

Em 2025, eventos meteorológicos e climáticos extremos afetaram pelo menos 13 milhões de pessoas na África e provocaram mais de 3 mil mortes registradas, segundo a organização. O continente também enfrenta problemas de secas, enchentes, aumento do nível do mar e perda de gelo em regiões montanhosas.

Um dos obstáculos é a capacidade desigual de prevenção.

Segundo a OMM, apenas cerca de 40% dos países africanos possuem sistemas de alerta precoce multirriscos. Isso significa que milhões de pessoas continuam mais vulneráveis quando uma onda de calor, tempestade, enchente ou outro evento extremo atinge determinada região.

E o calor prolongado tem consequências que nem sempre aparecem imediatamente.

Ele aumenta a pressão sobre a saúde humana, reduz a produtividade no trabalho, afeta a agricultura, aumenta a demanda por água e energia e pode comprometer animais que dependem de pastagens e fontes naturais de água.

EUROPA TAMBÉM ESTÁ SENDO TESTADA PELO CALOR

Se durante décadas o calor extremo foi associado principalmente às regiões tropicais e desérticas, a Europa está mostrando que também não está protegida.

O relatório europeu do clima publicado pelo Copernicus e pelo ECMWF aponta que 95% da Europa registrou temperaturas anuais acima da média em 2025.

O continente também enfrentou ondas de calor, seca, temperaturas oceânicas excepcionalmente elevadas e incêndios de grandes proporções.

O cenário de 2026 voltou a mostrar a vulnerabilidade europeia.

No final de julho, incêndios atingiram várias áreas da França, Espanha, Grécia e outros países. A combinação de temperaturas elevadas, vegetação seca, baixa umidade e ventos fortes transformou grandes áreas em verdadeiros barris de pólvora.

FRANÇA E ESPANHA: FOGO, EVACUAÇÕES E DESTRUIÇÃO

Na França, os incêndios de 2026 já consumiram mais de 90 mil hectares, quase o dobro da média dos anos anteriores considerada pela Reuters.

Na Espanha, mais de 200 mil hectares já haviam sido queimados neste ano até o final de julho, segundo dados citados pela agência.

Milhares de pessoas precisaram deixar suas casas.

Em determinado momento, aproximadamente 220 mil pessoas foram evacuadas na França, enquanto cerca de 100 mil receberam ordens ou orientações de evacuação na Espanha diante dos incêndios.

O problema não termina quando as chamas diminuem.

Florestas destruídas demoram décadas para se recuperar. A fauna perde habitat, agricultores perdem plantações e animais, comunidades sofrem prejuízos econômicos e a fumaça pode comprometer a qualidade do ar em áreas distantes dos focos.

GRÉCIA ENTRA NOVAMENTE NO MAPA DOS INCÊNDIOS

A Grécia também enfrenta uma situação grave.

No início de agosto, equipes de emergência continuavam combatendo incêndios no noroeste de Atenas. Mais de 400 bombeiros e 21 aeronaves foram mobilizados para combater as chamas em áreas atingidas por calor, vegetação seca e ventos instáveis.

Outras regiões gregas também foram atingidas, incluindo áreas de Creta e do continente.

A situação chegou a provocar mortes entre profissionais envolvidos no combate aos incêndios.

NÃO É APENAS UMA QUESTÃO DE TEMPERATURA

Um erro comum é analisar ondas de calor apenas pelo número registrado no termômetro.

O risco aumenta quando temperaturas elevadas permanecem durante vários dias e são acompanhadas por seca, baixa umidade, solo ressecado e ventos fortes.

Nessas condições, a vegetação perde água e se transforma rapidamente em combustível.

Foi exatamente essa combinação que ajudou a alimentar os grandes incêndios registrados na Europa.

Uma análise científica divulgada em julho concluiu que as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana aumentaram significativamente a probabilidade de condições favoráveis aos incêndios em partes da Espanha e da França. Segundo o estudo, condições de calor, seca e vento favoráveis ao fogo tornaram-se cerca de 20 vezes mais prováveis no centro da Espanha e aproximadamente duas vezes mais prováveis no sudoeste da França.

2025 JÁ HAVIA SIDO UM ALERTA

O que ocorre agora não surgiu do nada.

O relatório europeu do clima aponta que 2025 registrou aproximadamente 1,034 milhão de hectares queimados na Europa, o maior valor registrado na série apresentada pelo Copernicus para o período analisado.

A Península Ibérica concentrou uma parcela especialmente importante das áreas queimadas.

O continente também teve níveis recordes de emissões provenientes de incêndios, com a Espanha respondendo por aproximadamente metade do total europeu naquele ano.

UM ALERTA QUE ATRAVESSA FRONTEIRAS

África e Europa apresentam realidades muito diferentes.

Na África, milhões de pessoas dependem diretamente da agricultura e da pecuária e possuem menos recursos para enfrentar eventos extremos. Na Europa, existem sistemas de emergência mais estruturados, mas a intensidade crescente dos incêndios também está pressionando bombeiros, aeronaves e estruturas de proteção civil.

O ponto em comum é a vulnerabilidade diante de extremos cada vez mais difíceis de administrar.

O caso dos dromedários é simbólico porque mostra que até animais considerados extremamente resistentes ao calor podem sofrer quando as condições ambientais se tornam severas demais.

Na Europa, as imagens de florestas em chamas, cidades cercadas por fumaça e famílias deixando suas casas mostram outro lado da mesma crise.

O calor extremo não escolhe fronteiras.

E a questão que se coloca para os próximos anos não é apenas quantos novos recordes de temperatura serão registrados, mas se governos, cidades, produtores rurais, sistemas de saúde e serviços de emergência estarão preparados para um mundo no qual episódios extremos podem se tornar mais frequentes e mais intensos.

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