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Milei mira Lula para esconder os próprios problemas? Argentina ainda enfrenta desemprego, pressão social e conflitos com a imprensa
Por Tendência
Publicado em 03/08/2026 15:11
Internacional

 

Presidente argentino chama Lula de “ladrão” e “corrupto” e acusa o Brasil de interferência política. Enquanto dispara contra o governo brasileiro, Milei enfrenta críticas por saúde pública, mercado de trabalho, liberdade de imprensa e pelos efeitos sociais de seu programa de austeridade

O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a elevar o tom contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em nova entrevista, o argentino chamou Lula de “ladrão” e “corrupto” e afirmou que, se existe alguém interferindo politicamente na região, seria o presidente brasileiro, que, segundo ele, estaria “contaminando tudo” com as “ideias imundas do socialismo”.

As declarações ampliam uma crise política que deixou de ser apenas uma troca de críticas entre dois presidentes e passou a afetar também a relação entre Brasil e Argentina. Em julho, após novos ataques públicos de Milei durante sua passagem pelo Brasil, o governo brasileiro chegou a convocar seu embaixador em Buenos Aires para consultas, diante do agravamento do conflito diplomático.

Mas, enquanto Milei concentra parte de seu discurso político em atacar Lula e o modelo econômico brasileiro, a situação dentro da própria Argentina revela uma realidade bem mais complexa do que a narrativa de sucesso absoluto defendida pelo presidente.

A economia melhorou — mas a recuperação não chegou igualmente aos argentinos

É preciso reconhecer um ponto importante: a economia argentina apresentou recuperação depois da forte recessão de 2024.

Segundo dados oficiais, o PIB argentino cresceu 4,4% em 2025, depois de ter recuado 1,3% em 2024. O resultado foi impulsionado principalmente por setores como agricultura, mineração e serviços financeiros.

A inflação também caiu drasticamente em relação ao cenário deixado no final de 2023. A inflação anual, que havia chegado a cerca de 211% em 2023, está projetada para níveis muito menores em 2026.

O problema é que crescimento econômico não significa automaticamente melhoria generalizada da vida da população.

No primeiro trimestre de 2026, a taxa de desemprego argentina chegou a 7,8%, segundo o INDEC.

Análises recentes apontam ainda uma expansão preocupante da informalidade, estimada em 44,2%, enquanto setores voltados ao mercado interno, como indústria, comércio e construção, continuam enfrentando dificuldades.

Ou seja: a Argentina conseguiu estabilizar parte de suas contas e recuperar indicadores macroeconômicos, mas ainda enfrenta o desafio de transformar essa recuperação em empregos formais, salários melhores e crescimento distribuído.

Pobreza caiu, mas milhões continuam vulneráveis

Outro dado que não pode ser ignorado é a queda da pobreza.

O INDEC informou que 28,2% da população estava abaixo da linha da pobreza no segundo semestre de 2025, enquanto a indigência atingia 6,3%. São aproximadamente 8,47 milhões de pessoas em situação de pobreza e 1,88 milhão em situação de indigência nos 31 aglomerados urbanos pesquisados.

O número representa uma melhora significativa em relação ao período anterior e é um dos principais argumentos utilizados pelo governo Milei para defender seu programa econômico.

Mas a queda da pobreza não encerra o debate. A própria fotografia do mercado de trabalho mostra desemprego elevado e informalidade expressiva, enquanto o ajuste fiscal continua pressionando serviços públicos e setores dependentes do mercado interno.

A pergunta que permanece é simples: quanto da recuperação econômica está chegando efetivamente ao bolso do trabalhador argentino?

Na saúde, o ajuste virou motivo de protestos

É justamente na área social que as críticas ao governo Milei ganharam força.

Em maio de 2026, milhares de trabalhadores da saúde foram às ruas em Buenos Aires para protestar contra cortes orçamentários e reivindicar melhorias no sistema público. Segundo relatos registrados pela Reuters, hospitais passaram a receber mais pacientes depois que parte da população perdeu cobertura social por desemprego ou informalidade.

O problema é estrutural: quando pessoas perdem emprego formal ou cobertura de saúde, a pressão migra para o sistema público.

O governo Milei argumenta que o ajuste é necessário para equilibrar as contas do Estado. Os críticos respondem que uma redução acelerada dos gastos pode produzir efeitos sociais que não aparecem imediatamente nos indicadores fiscais.

Segurança: aqui os números não permitem uma crítica fácil a Milei

Se a intenção é avaliar o governo com seriedade, existe também um ponto em que Milei apresenta resultado favorável.

A taxa de homicídios dolosos na Argentina caiu para 3,6 casos por 100 mil habitantes em 2025, uma redução de 7,3% em relação a 2024 e de 18,5% frente a 2023, segundo estatísticas oficiais do Ministério da Segurança argentino.

Portanto, não seria correto afirmar que a segurança pública piorou durante o governo Milei.

O debate, porém, continua envolvendo a forma como o governo conduz suas políticas de segurança, o uso da força policial e as prioridades orçamentárias do Estado.

O maior problema de Milei pode estar na relação com a imprensa

Se existe uma área em que o governo argentino enfrenta críticas particularmente duras, é a relação com jornalistas e veículos de comunicação.

O relatório de 2026 do Reuters Institute aponta que a Argentina vive um ambiente de forte polarização e registra um antagonismo persistente entre Milei e jornalistas.

Segundo o levantamento, a organização argentina FOPEA contabilizou 278 ataques contra jornalistas em 2025, alta de 55% em relação ao ano anterior. O relatório afirma ainda que 2025 foi o ano mais crítico para a liberdade de imprensa na Argentina desde o início da série histórica da entidade, em 2008.

Em abril de 2026, o governo argentino chegou a impedir temporariamente a entrada de jornalistas credenciados na Casa Rosada, alegando questões de segurança relacionadas ao uso de óculos inteligentes para gravação. Um jornalista da Reuters foi impedido de entrar no prédio naquela manhã.

O episódio alimentou novamente o debate sobre o tratamento dispensado pelo governo aos profissionais de imprensa.

E há ainda o caso da criptomoeda $LIBRA

Milei também carrega uma controvérsia que continua sendo explorada por seus adversários: o episódio envolvendo a criptomoeda $LIBRA.

Em fevereiro de 2025, o presidente argentino promoveu o ativo em suas redes sociais. Pouco depois, a criptomoeda despencou e o episódio provocou uma crise política e judicial. A Justiça argentina abriu investigação sobre possível fraude e outros delitos relacionados ao caso.

Isso não significa que Milei tenha sido condenado por fraude — ele não foi. A questão permanece no campo das investigações e das acusações. Mas o episódio enfraqueceu o discurso de superioridade moral que o presidente costuma utilizar contra seus adversários.

O paradoxo de Milei

É justamente aí que está a principal contradição política do presidente argentino.

Milei conseguiu resultados que seus adversários não podem simplesmente ignorar: derrubou fortemente a inflação, recuperou o crescimento econômico em 2025 e reduziu a pobreza em relação aos níveis mais elevados registrados durante sua primeira fase de governo.

Mas, ao mesmo tempo, a Argentina continua convivendo com 7,8% de desemprego, elevada informalidade, pressão sobre serviços públicos, protestos na saúde e fortes questionamentos sobre a relação do governo com a imprensa.

É uma recuperação econômica real, mas desigual.

Enquanto Milei fala de Lula, a Argentina ainda precisa resolver seus próprios problemas

A nova ofensiva contra Lula pode render manchetes e mobilizar a base política de Milei, mas não resolve os problemas internos da Argentina.

Chamar o presidente brasileiro de “ladrão” e “corrupto” é uma acusação política grave, e não uma prova de irregularidade. Da mesma forma, chamar o socialismo de “ideias imundas” é uma manifestação ideológica, não uma demonstração de que o modelo econômico argentino tenha resolvido todos os seus problemas.

O verdadeiro teste de Milei não está nas frases provocativas contra Lula.

Está nos hospitais que precisam funcionar, nos trabalhadores que precisam de empregos formais, nos salários que precisam recuperar poder de compra, na indústria e no comércio que precisam voltar a crescer e em uma imprensa que precisa poder fiscalizar o poder sem sofrer intimidação.

A Argentina melhorou em indicadores importantes, mas ainda está longe de ter resolvido seus problemas estruturais.

E é justamente por isso que, antes de apontar o dedo para Brasília, Milei terá de continuar respondendo às perguntas que permanecem dentro de seu próprio país.

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