A saúde mental é frequentemente debatida no espaço público como um fenômeno isolado, uma questão restrita a desequilíbrios neuroquímicos ou predisposições genéticas individuais. Porém, essa é uma visão reducionista, que não leva em conta o que podemos chamar de uma autêntica patologia do meio: a desigualdade psíquica.
Esse conceito revela que as disparidades socioeconômicas não limitam apenas o acesso a bens materiais; elas moldam profundamente a subjetividade, a capacidade de desejar e até a integridade do sistema nervoso central.
Para quem vive no limite da sobrevivência, o sofrimento psíquico deixa de ser um evento episódico ou uma crise passageira para se tornar o que teóricos denominam de sofrimento ético-político.
Em outras palavras, trata-se de uma dor crônica que não nasce de um trauma isolado, mas da invisibilidade social e da negação sistemática da dignidade humana.
Assim, a estrutura de classe atua como um potente modelador do psiquismo. Nesse cenário de vulnerabilidade, a depressão ou a ansiedade não podem ser tratadas apenas com fármacos, pois são respostas a uma realidade que asfixia a esperança.
A desigualdade gera um apartheid subjetivo, no qual o direito ao futuro é distribuído de forma desigual. Compreender a saúde mental exige, obrigatoriamente, uma análise das estruturas sociais que produzem o desamparo.
Em suma, o cuidado clínico deve ser indissociável de uma postura política que reconheça o impacto do meio na constituição do "eu" e na saúde do corpo e da mente.
Jackson Buonocore
Sociólogo, psicanalista e escritor
buonocorejcb@gmail.com