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De Prudente de Morais a Lula: golpes, ditaduras, crises políticas e desigualdade atravessam a história do Brasil
Por Tendência
Publicado em 22/10/2026 23:47 • Atualizado 22/10/2026 23:48
Brasil

De 1889 aos governos contemporâneos, o país atravessou golpes, guerras internas, repressão e disputas ideológicas que expõem os limites de sua tradição de conciliação política.

A história política brasileira é frequentemente apresentada como uma sucessão de acordos entre grupos rivais. Entretanto, os acontecimentos registrados desde a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, mostram que a construção das instituições nacionais foi marcada por rupturas, exclusão social, intervenções militares e episódios de violência contra adversários políticos e populações marginalizadas.

Da queda da monarquia ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil alternou períodos de ampliação dos direitos democráticos com momentos de autoritarismo. A permanência da desigualdade social e a dificuldade de transformar divergências políticas em disputas institucionais pacíficas ajudam a explicar por que conflitos antigos continuam repercutindo no debate público.

1889: a República nasce sem participação popular ampla

Em 15 de novembro de 1889, um movimento liderado pelo marechal Deodoro da Fonseca derrubou a monarquia de Dom Pedro II e instaurou a República. A mudança de regime ocorreu por meio de uma intervenção militar, com participação de setores civis, sem consulta popular direta sobre o fim do Império.

A Constituição de 24 de fevereiro de 1891 estabeleceu o regime republicano presidencialista. Entretanto, a participação política permanecia restrita: mulheres, analfabetos e diversos outros grupos estavam excluídos do processo eleitoral. O voto não era secreto, e o poder continuava concentrado nas mãos das elites econômicas e regionais.

Esse cenário contribuiu para a formação de uma República que, embora rompesse formalmente com a monarquia, preservava profundas desigualdades sociais e mecanismos de exclusão política.

1894–1898: Prudente de Morais enfrenta uma República dividida

Em 15 de novembro de 1894, Prudente de Morais assumiu a Presidência da República, tornando-se o primeiro civil a ocupar o cargo após os governos militares de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Seu mandato, encerrado em 15 de novembro de 1898, foi marcado por disputas entre grupos republicanos, tensões militares e conflitos sociais.

Os setores conhecidos como jacobinos, formados principalmente por republicanos radicais e defensores de uma atuação política mais agressiva contra os adversários do regime, opunham-se a Prudente de Morais. A disputa demonstrava que a instalação da República não havia produzido consenso nem estabilidade imediata.

Um dos episódios mais graves ocorreu em 5 de novembro de 1897, quando Prudente de Morais sofreu uma tentativa de assassinato durante uma cerimônia militar no Rio de Janeiro. O atentado foi atribuído ao soldado Marcelino Bispo de Melo e resultou na morte do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, que interveio para proteger o presidente.

O episódio revelou o grau de radicalização política existente nos primeiros anos republicanos.

1896–1897: Guerra de Canudos e a repressão aos sertanejos

Enquanto a capital enfrentava disputas pelo poder, o sertão da Bahia se transformava em palco de um dos conflitos mais violentos dos primeiros anos da República.

Entre 1896 e outubro de 1897, o Exército brasileiro realizou quatro expedições militares contra o arraial de Canudos, comunidade liderada por Antônio Conselheiro. A população local era composta principalmente por sertanejos pobres, trabalhadores rurais e pessoas marginalizadas pela estrutura social da época.

Setores das elites e da imprensa associaram Canudos a uma suposta conspiração monarquista, alimentando o temor de que a comunidade representasse uma ameaça ao regime republicano. Essas acusações contribuíram para justificar a intervenção militar, embora não haja fundamento para tratar a alegada conspiração como um fato comprovado.

O arraial foi destruído em outubro de 1897. Milhares de pessoas morreram durante a guerra, entre combatentes e civis. O conflito tornou-se um símbolo da utilização da força estatal contra uma população vulnerável e das dificuldades da República em reconhecer conflitos sociais sem recorrer à repressão.

A cobertura posterior do episódio, inclusive na obra Os Sertões, de Euclides da Cunha, publicada em 1902, ajudou a revelar ao país a dimensão humana e social da tragédia.

1930–1937: novas rupturas na ordem constitucional

A instabilidade política brasileira não terminou com a consolidação da República. Em outubro de 1930, um movimento armado liderado por Getúlio Vargas derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, vencedor da eleição presidencial daquele ano.

Vargas assumiu o poder em novembro de 1930 e permaneceu à frente do governo, com diferentes arranjos institucionais, até 1945. Em 10 de novembro de 1937, instaurou o Estado Novo, fechou o Congresso Nacional, impôs uma nova Constituição e ampliou os mecanismos de censura e repressão política.

O período demonstra que a concentração de poder e a interrupção da normalidade constitucional atravessaram diferentes fases da história republicana, independentemente das mudanças de grupos e lideranças no comando do país.

1964–1985: o golpe militar e 21 anos de ditadura

Em 31 de março e 1º de abril de 1964, um movimento civil-militar depôs o presidente João Goulart, interrompendo seu mandato constitucional. Os militares assumiram o controle do Estado, com apoio de setores civis, empresariais e políticos, e estabeleceram um regime autoritário que durou 21 anos.

Durante a ditadura, presidentes-generais foram escolhidos por mecanismos indiretos, enquanto o governo restringia direitos políticos, perseguia opositores e limitava a atuação de organizações sindicais e movimentos sociais.

Em 13 de dezembro de 1968, o governo do general Artur da Costa e Silva editou o Ato Institucional nº 5, o AI-5. A medida ampliou os poderes do Executivo, permitiu o fechamento do Congresso, restringiu garantias individuais e intensificou a repressão política e a censura.

Prisões arbitrárias, tortura, mortes e desaparecimentos forçados passaram a integrar a história do período. Décadas depois, a Comissão Nacional da Verdade, criada em 2011 e instalada em 2012, investigou graves violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988, com atenção especial à ditadura militar.

O regime também deixou consequências econômicas duradouras. Entre 1968 e 1973, o chamado Milagre Econômico registrou elevadas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto. Entretanto, os benefícios foram distribuídos de maneira desigual, enquanto a concentração de renda persistiu.

A partir da década de 1970, o endividamento externo aumentou significativamente. A crise internacional, a elevação dos juros e os desequilíbrios internos contribuíram para a crise da dívida nos anos 1980. O país chegou ao fim da ditadura enfrentando inflação elevada, dificuldades econômicas e profundas desigualdades sociais.

1985–1988: a redemocratização e a recuperação dos direitos

A transição democrática ganhou força durante a década de 1980, impulsionada por mobilizações populares, movimentos sindicais, organizações civis e articulações políticas pela retomada das eleições diretas.

Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, mas morreu em 21 de abril daquele ano, sem tomar posse. O vice-presidente eleito, José Sarney, assumiu a Presidência em 15 de março de 1985.

Em 5 de outubro de 1988, foi promulgada a nova Constituição Federal, que restabeleceu e ampliou direitos fundamentais, consolidou garantias democráticas e estabeleceu as bases da ordem constitucional vigente.

A redemocratização representou uma ruptura importante com o autoritarismo, mas não eliminou problemas históricos, como a desigualdade econômica, a violência institucional e a baixa representatividade de parcelas da população nos espaços de poder.

1989–2002: eleições diretas e novas disputas políticas

Em 1989, o Brasil realizou sua primeira eleição presidencial direta desde 1960. Fernando Collor de Mello venceu Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, em uma disputa marcada por forte antagonismo político.

Collor tomou posse em 15 de março de 1990 e deixou o cargo em dezembro de 1992, após o processo de impeachment aprovado pelo Congresso Nacional. O vice-presidente Itamar Franco assumiu a Presidência e governou até 1994.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente e tomou posse em 1º de janeiro de 1995. Reeleito em 1998, permaneceu no cargo até o fim de 2002. Seu governo foi marcado pela consolidação do Plano Real, pela estabilização monetária e por reformas econômicas, mas também por disputas sobre privatizações, políticas sociais, desemprego e distribuição de renda.

A alternância de poder ocorreu dentro das regras constitucionais, embora a disputa entre projetos econômicos e sociais continuasse alimentando a polarização política.

2003–2010: Lula chega à Presidência e amplia o debate social

Em 1º de janeiro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse como presidente da República, após vencer a eleição de 2002. Sua chegada ao Palácio do Planalto representou um marco para o Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980, e para setores populares historicamente afastados do comando do Executivo federal.

Durante seus dois primeiros mandatos, o governo ampliou programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, criado em 2003 e instituído por lei em 2004. Também houve valorização real do salário mínimo em diferentes períodos, expansão do crédito e crescimento do consumo das famílias.

O país registrou avanços sociais e econômicos, especialmente durante parte da década de 2000, favorecidos também pelo cenário internacional e pela valorização das commodities. Milhões de brasileiros tiveram acesso ampliado ao consumo e a oportunidades educacionais.

Entretanto, permaneceram problemas estruturais, como a concentração de renda, a precariedade dos serviços públicos, as desigualdades regionais e a dependência de setores econômicos de baixo valor agregado. Os governos petistas também enfrentaram denúncias e escândalos de corrupção, entre eles o caso do mensalão, que se tornou um dos principais focos de disputa política nacional.

Lula deixou a Presidência em 1º de janeiro de 2011, com elevados índices de aprovação, e foi sucedido por Dilma Rousseff, também do PT, eleita em 2010.

2013–2016: protestos, crise política e impeachment

Em junho de 2013, manifestações iniciadas contra o aumento das tarifas de transporte público se espalharam pelo Brasil. Os protestos passaram a reunir reivindicações diversas, incluindo melhorias nos serviços públicos, críticas aos gastos governamentais e questionamentos sobre a representação política.

O movimento expôs uma insatisfação social que não se limitava à oposição tradicional ao governo federal. Ao mesmo tempo, a multiplicidade de pautas e a disputa pela interpretação das manifestações contribuíram para aprofundar divisões políticas.

Reeleita em outubro de 2014, Dilma Rousseff enfrentou uma grave recessão econômica, conflitos com o Congresso e o avanço de investigações sobre corrupção. Em 31 de agosto de 2016, o Senado aprovou seu impeachment, sob a acusação de crimes de responsabilidade relacionados a decretos orçamentários e operações fiscais.

A destituição dividiu o país. Seus defensores sustentaram a legalidade do procedimento, enquanto adversários denunciaram uma ruptura política. O processo ocorreu por meio das instituições constitucionais, mas agravou a desconfiança entre diferentes campos políticos.

Michel Temer, vice-presidente, assumiu definitivamente a Presidência após o afastamento de Dilma.

2019–2022: Bolsonaro, a pandemia, a política ambiental e a crise democrática

Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República em 1º de janeiro de 2019, após vencer a eleição de 2018. Seu governo promoveu a reforma da Previdência, aprovada em novembro daquele ano, e defendeu medidas de desburocratização, concessões e privatizações. Entretanto, a administração também foi marcada por conflitos com instituições, controvérsias ambientais, críticas à condução da pandemia de Covid-19 e questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro.

A pandemia tornou-se o principal teste político, sanitário e administrativo do governo. Até 31 de dezembro de 2022, o Brasil havia registrado 693.853 mortes por Covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde. Esse número dimensiona a tragédia sanitária enfrentada pelo país, embora não permita atribuir automaticamente todas as mortes às decisões de um único nível de governo. 

A atuação do presidente durante a emergência sanitária foi alvo de críticas de autoridades de saúde, pesquisadores, governadores e setores da sociedade civil. Bolsonaro questionou medidas de distanciamento social adotadas por estados e municípios, promoveu medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e fez declarações que minimizaram a gravidade da doença. Sua postura entrou em conflito com recomendações de especialistas e com os esforços de parte das autoridades sanitárias para ampliar a prevenção e a vacinação.

Eduardo Pazuello e a condução do Ministério da Saúde

A gestão do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, inicialmente como interino e depois como titular, tornou-se um dos focos centrais das controvérsias sobre a resposta federal à pandemia. Em janeiro de 2021, Manaus enfrentou uma grave crise de abastecimento de oxigênio hospitalar, com pacientes morrendo em meio ao colapso da assistência.

Documentos examinados durante a crise indicaram que o governo federal havia recebido alertas sobre o risco de desabastecimento antes da data que Pazuello afirmou ter tomado conhecimento da situação. Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, em maio de 2021, o então ex-ministro apresentou uma versão contestada por registros oficiais, conforme apuração da Agência Lupa.

A CPI da Pandemia, cujo relatório final foi aprovado em 26 de outubro de 2021, investigou ações e omissões do governo federal, incluindo a condução da crise sanitária no Amazonas, a política de medicamentos e questões relacionadas à aquisição de vacinas. O relatório propôs o indiciamento de Bolsonaro e de outras autoridades e agentes públicos. Por se tratar de uma conclusão parlamentar, as propostas de responsabilização não devem ser confundidas, por si só, com condenações judiciais.

O balanço daquele período precisa considerar também as medidas emergenciais de assistência econômica, entre elas o auxílio emergencial, que ajudou milhões de famílias durante a crise. Ainda assim, a dimensão das mortes, as disputas em torno das orientações sanitárias e os problemas de coordenação entre autoridades colocaram a conduta do governo federal sob intenso escrutínio público.

Ricardo Salles e as controvérsias ambientais

A política ambiental foi outra frente de conflito durante a administração Bolsonaro. O então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, tornou-se alvo de críticas de organizações ambientalistas, pesquisadores e setores da comunidade internacional por sua atuação na fiscalização ambiental e na proteção da Amazônia.

Em abril de 2020, durante reunião ministerial, Salles defendeu o aproveitamento da atenção pública concentrada na pandemia para avançar mudanças regulatórias e simplificar normas ambientais. A declaração ganhou repercussão nacional e internacional por sugerir que a crise sanitária poderia abrir espaço para alterações na política ambiental.

Em maio de 2021, a Polícia Federal deflagrou a Operação Akuanduba para investigar suspeitas relacionadas à exportação ilegal de madeira e à atuação de agentes públicos. Salles foi alvo de medidas investigativas autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Ele negou irregularidades e afirmou que as investigações demonstrariam sua inocência.

Em 23 de junho de 2021, Salles deixou o Ministério do Meio Ambiente, em meio ao aumento da pressão política e das investigações. A existência de uma investigação não equivale a uma condenação, mas os episódios marcaram o debate sobre fiscalização, desmatamento e credibilidade internacional da política ambiental brasileira. 

Economia, inflação e desigualdade durante a pandemia

Na economia, o governo enfrentou a recessão de 2020, seguida de recuperação da atividade, em um cenário de forte impacto da pandemia sobre o emprego e a renda. O auxílio emergencial foi uma medida importante para amortecer as perdas de milhões de brasileiros, embora o alcance e o valor do benefício tenham sido objeto de disputas políticas.

A recuperação posterior ocorreu em meio à inflação elevada e ao encarecimento dos alimentos, dos combustíveis e de outros itens essenciais, pressionando o orçamento das famílias. A redução do desemprego em 2022 foi um indicador positivo, mas não eliminou a informalidade, a precariedade ocupacional e as dificuldades de recomposição do poder de compra.

A avaliação econômica do período deve, portanto, considerar tanto as medidas de apoio à população e os resultados da recuperação quanto o custo social da crise, as dificuldades fiscais e os efeitos da inflação sobre os grupos de menor renda.

Eleições de 2022 e ataques às instituições

A disputa presidencial de 2022 ocorreu em ambiente de intensa polarização. Bolsonaro questionou repetidamente aspectos do sistema eletrônico de votação sem apresentar comprovação pública que sustentasse suas alegações de fraude eleitoral. O resultado oficial confirmou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, realizado em 30 de outubro de 2022, com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro.

Após a derrota, manifestações e acampamentos de apoiadores do então presidente ocorreram diante de instalações militares. Em 8 de janeiro de 2023, uma semana depois da posse de Lula, grupos invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto, em Brasília.

As investigações posteriores examinaram a atuação de diferentes agentes políticos e militares em uma articulação para impedir a concretização do resultado eleitoral e manter Bolsonaro no poder. O ex-presidente negou as acusações. O caso avançou para o Judiciário e, em 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Bolsonaro, reconhecendo seu papel de liderança na trama golpista. Em 2026, a Corte rejeitou recurso da defesa contra a condenação, que fixou pena de 27 anos e três meses de prisão. 

O episódio representa um marco na história democrática recente, pois a disputa política ultrapassou a contestação retórica e chegou a ações destinadas a impedir a continuidade regular do governo eleito. A responsabilização deve seguir as garantias do devido processo legal, mas o respeito aos resultados eleitorais e à ordem constitucional constitui obrigação central de todos os agentes públicos.

O caso das joias sauditas

Outra controvérsia envolveu presentes de alto valor recebidos de autoridades da Arábia Saudita durante o governo Bolsonaro. A Polícia Federal investigou suspeitas de tentativa de entrada irregular de joias no país, retirada de bens do acervo presidencial e venda de peças no exterior.

O caso levantou questões sobre a distinção entre presentes pessoais e bens pertencentes ao Estado brasileiro, além dos procedimentos de registro, guarda e eventual devolução de objetos recebidos por autoridades no exercício do cargo.

Em março de 2026, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento da investigação, argumentando que as regras existentes não definiam com clareza suficiente a titularidade dos presentes recebidos durante o mandato para sustentar a responsabilização criminal pretendida. O pedido de arquivamento não deve ser apresentado como prova de que todas as condutas investigadas foram regulares, assim como as suspeitas apuradas não podem ser tratadas automaticamente como crimes definitivamente reconhecidos

O episódio permanece relevante para o debate sobre transparência, patrimônio público e deveres éticos de autoridades, especialmente porque envolve bens recebidos em razão do exercício da Presidência.

O balanço do governo Bolsonaro

O período de 2019 a 2022 combinou reformas econômicas, medidas de assistência emergencial e recuperação do mercado de trabalho com uma crise sanitária de enorme dimensão, controvérsias ambientais, inflação elevada e conflitos institucionais.

A atuação de Bolsonaro e de integrantes de seu governo foi objeto de críticas e investigações em diferentes áreas. Na pandemia, a dimensão das mortes e as controvérsias sobre a resposta federal exigem análise rigorosa das decisões tomadas e de seus efeitos. Na política ambiental, as investigações e as disputas sobre fiscalização levantaram questionamentos sobre a proteção dos biomas. No campo democrático, a trama golpista resultou em condenação judicial do ex-presidente.

Esses fatos devem ser examinados sem ignorar medidas adotadas pelo governo que tiveram efeitos relevantes, como a reforma da Previdência e o auxílio emergencial, mas também sem minimizar a gravidade das crises enfrentadas pelo país. Uma avaliação histórica consistente depende da análise conjunta dos resultados administrativos, das responsabilidades políticas e dos fatos estabelecidos pelas investigações e pelos tribunais.

 

2023 em diante: o terceiro governo Lula e os desafios democráticos

Lula iniciou seu terceiro mandato presidencial em 1º de janeiro de 2023, em um cenário de forte divisão política e de reconstrução institucional após os ataques de 8 de janeiro.

O governo retomou políticas sociais, reformulou o Bolsa Família, promoveu a valorização do salário mínimo e colocou a redução da pobreza e da fome entre suas prioridades. Também retomou ações de combate ao desmatamento e ampliou a presença do Brasil em fóruns internacionais.

Ao mesmo tempo, o país continuou enfrentando desafios relacionados à segurança pública, ao custo de vida, à qualidade dos serviços públicos, ao equilíbrio das contas governamentais e à geração de empregos de qualidade. A avaliação dessas políticas permanece objeto de disputa entre governo, oposição, especialistas e diferentes setores da sociedade.

A polarização também continuou presente nas redes sociais, no Congresso Nacional e no debate público. A desinformação, os ataques pessoais e a dificuldade de estabelecer consensos mínimos sobre fatos e regras democráticas seguem como obstáculos à construção de um ambiente político menos conflituoso.

É importante, porém, distinguir a disputa democrática legítima de ações que ameaçam direitos fundamentais ou buscam romper a ordem constitucional. A existência de oposição, divergências ideológicas e críticas ao governo é parte essencial de qualquer democracia.

Uma história marcada por rupturas e desigualdades

Da Proclamação da República, em 1889, à atualidade, a história brasileira registra uma sucessão de transformações políticas que nem sempre foram acompanhadas pela inclusão social e pelo fortalecimento das instituições.

A Guerra de Canudos, a ditadura do Estado Novo, o golpe de 1964 e os ataques de 8 de janeiro de 2023 pertencem a contextos históricos distintos. Ainda assim, cada um desses episódios permite examinar os riscos da intolerância, da deslegitimação dos adversários e do emprego da força contra direitos e instituições.

A trajetória que vai de Prudente de Morais a Lula também revela que a estabilidade democrática não depende apenas da realização periódica de eleições. Exige respeito aos resultados eleitorais, independência institucional, liberdade de imprensa, responsabilização por abusos e participação política efetiva da população.

O desenvolvimento nacional, por sua vez, não pode ser medido exclusivamente pelo crescimento econômico. A redução das desigualdades, a qualidade da educação, o acesso à saúde, a proteção dos direitos trabalhistas e a ampliação das oportunidades são elementos fundamentais para superar problemas históricos.

Mais de um século depois da queda do Império, o Brasil continua diante de uma questão central: como transformar diferenças políticas em disputas democráticas capazes de produzir soluções concretas para a população?

A resposta passa pelo reconhecimento de que a democracia não elimina os conflitos, mas estabelece limites para que eles sejam resolvidos sem perseguições, golpes ou violência. Sem esse compromisso, a polarização tende a reproduzir velhas divisões, enquanto os problemas estruturais do país permanecem à espera de soluções duradouras.

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