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BETS: DE ONDE VIERAM AS GIGANTES DAS APOSTAS, QUEM SÃO OS DONOS E QUANTO O BRASIL PODE PERDER COM A PROIBIÇÃO
Mercado movimentou dezenas de bilhões de reais, recebeu investimentos estrangeiros e chegou a ter 85 empresas autorizadas antes da proibição determinada pelo governo federal; agora, o país enfrenta a disputa entre arrecadação, proteção das famílias e crescimento do mercado clandestino
Por Tendência
Publicado em 07/10/2026 21:28
Brasil

O mercado brasileiro de apostas esportivas e jogos on-line passou, em poucos anos, de uma atividade praticamente sem fiscalização nacional para um dos setores digitais de maior crescimento no país. A regulamentação começou a valer efetivamente em 1º de janeiro de 2025, mas menos de dois anos depois o governo federal determinou a interrupção do mercado regulado.

A Medida Provisória nº 1.394, editada em 25 de setembro de 2026, proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em território nacional. A medida alcança tanto apostas esportivas quanto jogos on-line e também empresas sediadas no exterior que ofereçam seus serviços a pessoas localizadas no Brasil.

A decisão colocou uma questão central no debate nacional: quanto dinheiro estava entrando no Brasil, quanto era arrecadado pelo governo e quanto poderá deixar de circular na economia brasileira?

UM MERCADO QUE CHEGOU A R$ 37 BILHÕES

Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou aproximadamente R$ 37 bilhões de receita bruta de jogos em 2025. Sobre a atividade incidiam tributos, destinações legais e outras obrigações previstas na legislação.

No primeiro semestre de 2026, o mercado continuava crescendo. A receita bruta de jogos, conhecida como GGR, chegou a R$ 20,2 bilhões nos seis primeiros meses do ano, segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas.

Se esse ritmo fosse mantido durante 12 meses, o mercado poderia superar a marca de R$ 40 bilhões anuais.

É importante fazer uma distinção: esse valor não significa que as empresas tenham recebido R$ 40 bilhões de lucro. O GGR representa a receita bruta dos jogos, depois de considerados os valores pagos em prêmios, e é diferente do faturamento total apostado pelos jogadores.

QUANTAS EMPRESAS OPERAVAM LEGALMENTE?

Antes da proibição, o Ministério da Fazenda havia autorizado 85 empresas a explorar apostas de quota fixa em âmbito nacional.

A própria Fazenda publicou os processos de autorização dessas 85 empresas, permitindo consultar documentos, CNPJs, marcas e domínios utilizados pelas operadoras.

O modelo permitia que uma autorização contemplasse até três marcas. Por isso, o número de empresas não corresponde ao número total de sites e marcas.

No primeiro semestre de 2026, dados divulgados com base na Secretaria de Prêmios e Apostas apontavam 84 operadores e 196 marcas ativas.

AS EMPRESAS ERAM BRASILEIRAS?

Aqui está uma das principais características do mercado.

Para conseguir autorização nacional, a empresa precisava constituir uma pessoa jurídica brasileira, com CNPJ e sede no país. A legislação também estabelecia exigências relacionadas à estrutura societária e à presença de brasileiros no capital.

Isso, porém, não significa que os grupos econômicos por trás das marcas fossem brasileiros.

Diversas das maiores marcas possuem controladores ou investidores estrangeiros.

BETANO — GRUPO COM BASE EM MALTA

A Betano pertence ao grupo Kaizen Gaming. A própria companhia informa que a Kaizen Gaming International Ltd. está sediada em Malta e que o grupo opera a marca Betano em diversos países, incluindo o Brasil.

A Betano também realizou investimento físico no país.

Em janeiro de 2025, a empresa inaugurou em São Paulo um escritório de aproximadamente 4 mil metros quadrados, apresentado como centro de inovação, colaboração e operação brasileira.

A estrutura demonstra que parte do dinheiro das grandes plataformas efetivamente foi aplicada em funcionários, tecnologia, publicidade, escritórios e operações no Brasil.

BETNACIONAL — INVESTIMENTO DE UMA MULTINACIONAL

Um dos casos mais expressivos é o da Betnacional.

A multinacional Flutter Entertainment, dona de marcas internacionais como Betfair, adquiriu participação de 56% da NSX Group, controladora da Betnacional.

O negócio envolveu inicialmente aproximadamente US$ 350 milhões em dinheiro.

Posteriormente, nos documentos financeiros da Flutter, o valor total da aquisição da participação de 56% foi contabilizado em aproximadamente US$ 674 milhões, ou R$ 3,799 bilhões, considerando também ativos, participação minoritária e outros componentes da operação.

É um exemplo importante porque mostra que não se tratava apenas de empresas estrangeiras operando sites a partir do exterior.

Houve também aquisição bilionária de uma companhia brasileira, transferência de tecnologia, contratação de profissionais e expansão de estrutura no país.

SUPERBET — CAPITAL AMERICANO E ORIGEM ROMENA

A Superbet nasceu na Romênia, fundada pelo empresário Sacha Dragic.

O grupo recebeu investimentos de grandes fundos internacionais. Em 2019, a Blackstone anunciou um investimento de € 175 milhões na companhia.

Em 2025, a empresa anunciou uma operação de refinanciamento de aproximadamente € 1,3 bilhão, envolvendo Blackstone e HPS Investment Partners.

Isso não significa que € 1,3 bilhão tenham sido investidos integralmente no Brasil. O valor é relacionado ao grupo Superbet e suas operações internacionais.

Essa distinção é fundamental para evitar uma conclusão errada: capital estrangeiro de um grupo não equivale automaticamente a investimento estrangeiro realizado no território brasileiro.

BET365 — UMA DAS MAIORES EMPRESAS DO SETOR

A bet365 possui origem britânica e está sediada em Stoke-on-Trent, no Reino Unido.

Registros oficiais britânicos apontam Denise Coates como controladora com participação superior a 50% e inferior a 75% da Bet365 Group Limited. John Fitzgerald Coates também aparece como pessoa com controle significativo.

A empresa construiu uma operação global de apostas on-line, com presença em diversos mercados.

STAKE — OPERAÇÃO INTERNACIONAL

A Stake é outro exemplo de empresa com estrutura internacional.

A Stake.com informa que a plataforma internacional é operada pela Medium Rare N.V., sediada em Curaçao, licenciada pela autoridade de jogos daquele território.

No mercado brasileiro regulado, entretanto, existia uma empresa brasileira específica, a Stake Brazil Ltda., autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas.

Isso ajuda a explicar por que não se deve simplesmente classificar todas as bets como "empresas estrangeiras": existem estruturas jurídicas brasileiras pertencentes ou relacionadas a grupos internacionais.

QUANTO AS BETS PAGARAM PARA ENTRAR NO BRASIL?

A autorização federal custava R$ 30 milhões por empresa, com validade de cinco anos.

Cada autorização permitia até três marcas. Uma nova autorização era necessária para marcas adicionais.

Com 85 empresas autorizadas, somente as outorgas representam aproximadamente:

85 × R$ 30 milhões = R$ 2,55 bilhões.

Esse dinheiro foi recolhido ao Tesouro Nacional.

Ou seja, antes mesmo de considerar os demais tributos, o governo recebeu bilhões apenas pela concessão das autorizações.

E QUANTO O GOVERNO ARRECADOU EM IMPOSTOS?

Os números são expressivos.

Segundo informação apresentada pela Receita Federal à Câmara dos Deputados, o governo arrecadou aproximadamente R$ 9 bilhões em impostos relacionados às apostas em 2025.

Outro levantamento baseado nos dados da Receita aponta aproximadamente R$ 9,95 bilhões considerando a tributação das bets e demais componentes tributários do setor naquele ano.

Além disso, somente entre janeiro e agosto de 2026, a arrecadação federal relacionada às bets chegou a aproximadamente R$ 6,42 bilhões.

Portanto, a proibição não elimina apenas uma atividade econômica. Ela também elimina uma fonte de arrecadação que havia crescido rapidamente.

COMO FUNCIONAVA A TRIBUTAÇÃO?

O modelo tributário mudou ao longo do período de funcionamento do mercado regulado.

A legislação estabeleceu cobrança sobre a receita bruta dos jogos, além de impostos tradicionais incidentes sobre as empresas.

Em 2025, a alíquota específica sobre a receita bruta dos jogos era de 12%.

A Lei Complementar nº 224/2025 estabeleceu uma elevação gradual para:

  • 13% em 2026
  • 14% em 2027
  • 15% a partir de 2028

A Receita Federal estimou que apenas a elevação dessa participação governamental acrescentaria cerca de R$ 255 milhões à arrecadação em 2026, R$ 775 milhões em 2027 e R$ 1,246 bilhão em 2028, caso o mercado continuasse funcionando.

ENTÃO QUANTO O BRASIL DEIXARÁ DE ARRECADAR?

Não existe, neste momento, um número oficial único que permita afirmar exatamente quanto o Brasil deixará de arrecadar nos próximos anos.

Isso ocorre porque a perda dependerá de vários fatores:

  1. quanto o mercado legal teria crescido;
  2. quantas empresas continuariam operando;
  3. qual seria o volume de apostas;
  4. qual tributação estaria vigente;
  5. quanto dinheiro migrará para plataformas clandestinas;
  6. quanto os consumidores redirecionarão para consumo, poupança ou pagamento de dívidas.

Entretanto, existe uma referência concreta.

Somente em 2025, a arrecadação tributária federal relacionada às bets chegou à casa de R$ 9 bilhões, enquanto o governo também recebeu aproximadamente R$ 2,55 bilhões em outorgas das 85 empresas autorizadas.

Em 2026, antes da interrupção, a arrecadação já havia chegado a aproximadamente R$ 6,42 bilhões até agosto.

Assim, uma ordem de grandeza de bilhões de reais por ano está diretamente envolvida na decisão.

Mas seria incorreto dizer que o Brasil simplesmente "perderá R$ 9 bilhões por ano", porque parte do dinheiro pode ser recuperada por outros setores da economia e parte das apostas pode migrar para o mercado ilegal.

O QUE O GOVERNO ALEGA PARA PROIBIR?

O governo federal apresentou a proibição como uma medida de proteção das famílias, especialmente diante de preocupações com endividamento, dependência em jogos, publicidade agressiva e movimentações financeiras ilegais.

O Ministério da Saúde destacou que a medida alcança apostas esportivas e jogos on-line e foi apresentada como uma ação de proteção à saúde mental.

A Advocacia-Geral da União também defendeu a manutenção da proibição no Supremo Tribunal Federal e citou dados sobre aumento de problemas relacionados às apostas e riscos associados ao mercado clandestino.

O OUTRO LADO: O RISCO DE CRESCIMENTO DO MERCADO ILEGAL

A existência do mercado clandestino é um dos pontos mais controversos da decisão.

Uma auditoria do Tribunal de Contas da União estimou que operadores ilegais poderiam responder por 41% a 51% do volume total de apostas, equivalente a até R$ 40 bilhões anuais. O TCU também apontou riscos de lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e evasão fiscal.

Depois da proibição, o governo intensificou o bloqueio de plataformas ilegais.

Até o início de outubro, foram solicitadas medidas para derrubar mais de 13 mil domínios de apostas clandestinas, além de milhares de páginas, perfis, grupos e canais nas redes sociais.

O problema é tecnológico: bloquear um endereço não necessariamente elimina a operação. Sites podem mudar de domínio, servidores ou estrutura financeira.

QUANTO DINHEIRO ESTAVA EM JOGO?

Outro dado revela a dimensão do mercado.

Na data de encerramento das operações, aproximadamente R$ 1,3 bilhão ainda permanecia nas contas dos apostadores, envolvendo cerca de 26,5 milhões de CPFs com saldo ativo.

As empresas foram obrigadas a devolver os valores aos usuários.

Esse número mostra que o mercado não era apenas uma atividade publicitária ou esportiva: havia uma gigantesca infraestrutura financeira movimentando recursos diariamente.

O IMPACTO NO FUTEBOL

A interrupção das bets também atingiu diretamente o futebol brasileiro.

Em 2025, as casas de apostas responderam por aproximadamente R$ 1,03 bilhão dos patrocínios dos clubes da Série A. Isso representou cerca de um terço das receitas comerciais dos 20 clubes da elite.

Considerando os 20 clubes de maior faturamento do país, levantamento da Sports Value aponta R$ 1,143 bilhão em patrocínios de bets em 2025, contra R$ 618 milhões em 2024.

A proibição, portanto, atinge também clubes, federações, influenciadores, empresas de publicidade, fornecedores de tecnologia e outros setores que dependiam dos contratos.

O MERCADO TAMBÉM GERAVA EMPREGOS

As consequências não ficaram restritas aos cofres públicos.

Levantamento divulgado após a proibição apontou que pelo menos 36 das 188 operadoras autorizadas ou relacionadas ao mercado realizaram cortes de funcionários nos primeiros dias após a medida.

Estimativas do setor apontavam aproximadamente 10 mil empregos diretos e 5 mil indiretos relacionados à atividade.

É mais um ponto que precisa entrar na conta econômica: a proibição pode reduzir determinados problemas sociais e financeiros, mas também provoca perda de empregos, contratos, investimentos e receitas tributárias.

AFINAL, ONDE ESTAVA O DINHEIRO DAS GRANDES BETS?

A resposta não é simples.

As principais empresas estavam estruturadas em diferentes centros internacionais, incluindo Malta, Reino Unido, Romênia, Irlanda, Curaçao e outros mercados, enquanto mantinham subsidiárias, escritórios, funcionários, fornecedores e estruturas comerciais no Brasil.

O modelo brasileiro tentou justamente obrigar esses grupos internacionais a entrar em uma estrutura regulada nacional, com CNPJ, autorização, fiscalização, domínio ".bet.br", regras de identificação dos apostadores e controle financeiro.

Portanto, a afirmação de que "todo o dinheiro das bets saía do Brasil" seria incorreta.

Parte do capital era estrangeiro e parte dos lucros poderia ser remetida aos controladores, mas também houve investimentos efetivos em empresas brasileiras, escritórios, funcionários, tecnologia, marketing, publicidade e patrocínios.

O caso da Flutter/Betnacional é o exemplo mais evidente: uma multinacional desembolsou bilhões de reais em uma operação envolvendo uma companhia brasileira.

A CONTA FINAL

A experiência brasileira com as bets deixou uma equação difícil para o país.

De um lado:

  • bilhões de reais em arrecadação;
  • R$ 2,55 bilhões em outorgas de 85 empresas;
  • investimentos estrangeiros;
  • empregos;
  • contratos de publicidade;
  • patrocínios esportivos;
  • desenvolvimento de tecnologia;
  • fiscalização e rastreamento financeiro.

Do outro:

  • preocupação com dependência em jogos;
  • endividamento de famílias;
  • riscos de lavagem de dinheiro;
  • manipulação de resultados;
  • publicidade direcionada a públicos vulneráveis;
  • expansão do mercado clandestino;
  • problemas de saúde relacionados ao jogo.

O governo decidiu privilegiar a interrupção da atividade. A MP nº 1.394/2026, porém, possui caráter provisório e ainda depende da tramitação no Congresso. A medida entrou em vigor em 25 de setembro e determinou o encerramento das operações autorizadas.

UMA PROIBIÇÃO QUE AINDA NÃO ENCERRA A DISCUSSÃO

A grande questão econômica agora não é apenas quanto o Brasil arrecadou com as bets.

É saber quanto dessa atividade desaparecerá, quanto migrará para sites clandestinos e quanto dinheiro retornará para o consumo, pagamento de dívidas e poupança das famílias.

O mercado regulado chegou a uma receita bruta de aproximadamente R$ 37 bilhões em 2025 e ultrapassou R$ 20 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026.

Por isso, a proibição cria uma situação inédita: o Estado deixa de fiscalizar uma atividade que havia acabado de ser formalizada, abre mão de uma fonte relevante de arrecadação e, ao mesmo tempo, tenta impedir que o mesmo público migre para plataformas clandestinas.

A disputa agora passa pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal, enquanto o governo tenta desmontar a estrutura regulada e combater os operadores ilegais.

A pergunta que permanecerá no centro do debate econômico é simples: o dinheiro que antes estava dentro do mercado regulado desaparecerá do jogo — ou apenas mudará de endereço?

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