A Petrobras prepara uma nova etapa da campanha exploratória na Bacia da Foz do Amazonas, na chamada Margem Equatorial brasileira. A companhia deverá enviar uma nova sonda de perfuração para o litoral do Amapá em janeiro de 2027, com a missão de avançar na investigação de três novos poços no bloco FZA-M-59.
A informação foi confirmada pela diretora de Engenharia, Tecnologia e Inovação da Petrobras, Renata Baruzzi, em entrevista à Reuters. A autorização ambiental para os novos trabalhos foi concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no início de setembro.
A nova fase ganhou importância depois que a Petrobras anunciou, em agosto de 2026, a identificação de hidrocarbonetos no poço Morpho, também localizado no FZA-M-59. Agora, a empresa pretende obter informações adicionais para entender a dimensão, as características e o potencial econômico do reservatório.
Três novos poços serão perfurados
Os três poços adicionais previstos para a campanha são identificados como Manga, Crotalus e Morpho Extensão, também denominado PAD Morpho.
Eles não representam simplesmente novas tentativas independentes de encontrar petróleo. O objetivo principal é delimitar a descoberta feita no Morpho, obter dados geológicos e avaliar o volume potencial de petróleo e eventualmente gás natural existente na área.
Segundo informações divulgadas pela Agência iNFRA, a Petrobras pretende realizar as perfurações de maneira sequencial, uma após a outra, ao longo de 2027.
A etapa é considerada decisiva porque a presença de petróleo, por si só, não significa que uma descoberta seja automaticamente transformada em campo produtor. Ainda é necessário saber quanto petróleo existe, suas características, a produtividade do reservatório, as condições de extração e os custos envolvidos.
O que já foi encontrado no poço Morpho
O poço Morpho está no bloco FZA-M-59, em águas ultraprofundas do Amapá.
A Petrobras iniciou a perfuração do poço em outubro de 2025, após obter autorização ambiental. A área está aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá, em lâmina d'água superior a 2.800 metros, segundo documentação da companhia.
Em agosto de 2026, a estatal anunciou a presença de hidrocarbonetos no poço.
A descoberta foi considerada importante para a estratégia exploratória da empresa porque aumenta o conhecimento sobre o potencial da Margem Equatorial, uma região que inclui as bacias de Foz do Amazonas, Pará-Maranhão, Barreirinhas, Ceará e Potiguar.
A Petrobras afirma que o óleo identificado no Morpho é leve e de alta qualidade, embora a companhia ainda esteja realizando estudos para determinar com maior precisão suas características e o potencial produtivo do reservatório.
Por que os três novos poços são tão importantes?
A perfuração de Manga, Crotalus e Morpho Extensão deverá responder algumas das principais perguntas deixadas pela descoberta inicial.
Entre elas:
- Qual é a extensão do reservatório?
- Qual é o volume de petróleo existente?
- Há continuidade da acumulação identificada no Morpho?
- Qual é a qualidade do óleo?
- Existe potencial para gás natural?
- Qual é a produtividade esperada dos reservatórios?
- Quais tecnologias serão necessárias para retirar o petróleo?
- A produção poderá ser economicamente viável?
Somente depois dessas respostas a Petrobras poderá avançar na avaliação de um eventual projeto de desenvolvimento da descoberta.
Por isso, a nova campanha é uma etapa de avaliação e delimitação, e não significa que a Petrobras já tenha decidido iniciar produção comercial de petróleo na região.
Qual sonda será utilizada?
A campanha deverá envolver uma nova unidade de perfuração.
O poço Morpho vem sendo perfurado pela ODN II, ou NS-42, enquanto informações divulgadas sobre a próxima etapa apontam que os três poços adicionais poderão ser executados pela ODN-II (NS-42) ou pela Amaralina Star (NS-43), dependendo do planejamento operacional da Petrobras.
A diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia dos Anjos, afirmou que a prioridade da companhia é concluir o Morpho e depois concentrar esforços nos três poços contingentes.
Segundo informações divulgadas em 23 de setembro, a Petrobras esperava concluir a perfuração do Morpho naquela semana ou na seguinte, quando a sonda atingisse o nível geológico exigido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A autorização do Ibama
A autorização para os três novos poços veio por meio da retificação da Licença de Operação nº 1.684/2025.
De acordo com o Ibama, os três poços já estavam previstos nos estudos ambientais apresentados pela Petrobras em 2021. O planejamento original contemplava um poço firme e outros três poços contingentes.
Os novos trabalhos, portanto, foram submetidos a uma análise dentro do processo de licenciamento ambiental existente, com exigências e condicionantes adicionais.
A decisão também determinou que a Petrobras apresente um cronograma atualizado de perfuração e cumpra medidas relacionadas a monitoramento ambiental, controle de poluição, produção de relatórios e fiscalização.
O histórico de uma área cercada de controvérsias
A exploração da Foz do Amazonas não começou agora.
O bloco FZA-M-59 está no centro de um processo de licenciamento ambiental que se estende por mais de uma década.
Em 2023, o Ibama havia negado a licença solicitada pela Petrobras para perfurar o bloco. Na ocasião, o órgão apontou inconsistências técnicas e destacou a sensibilidade socioambiental da região.
A discussão envolvia, entre outros pontos, os planos de emergência para um eventual vazamento de petróleo, a distância da operação em relação à costa e a existência de ecossistemas considerados ambientalmente sensíveis.
Posteriormente, a Petrobras apresentou novos estudos e informações, e o processo de licenciamento avançou até a autorização para o poço Morpho em 2025.
O episódio do vazamento de fluido em 2026
A campanha também enfrentou um incidente operacional no início de 2026.
Em janeiro, o Ibama informou ter recebido da Petrobras uma comunicação sobre a perda de fluido de perfuração em duas linhas auxiliares ligadas à sonda que operava o Morpho.
Segundo o órgão, houve descarga de fluido para o mar. A Petrobras interrompeu as operações, isolou as linhas afetadas e fechou a válvula de fundo, interrompendo a descarga. As causas foram colocadas sob apuração.
O episódio aumentou a atenção dos órgãos ambientais sobre a operação, em uma região considerada de elevada sensibilidade ambiental.
O debate ambiental permanece
A autorização dos novos poços não encerrou a discussão ambiental em torno da Margem Equatorial.
O Ministério Público Federal (MPF) havia solicitado esclarecimentos ao Ibama sobre a inclusão dos três novos poços na licença do FZA-M-59. Em agosto, o MPF questionou aspectos relacionados à forma de autorização, aos impactos cumulativos e às exigências ambientais para a atividade.
O Ibama, por sua vez, manteve a autorização após a apresentação de informações complementares pela Petrobras e estabeleceu condicionantes para a continuidade das operações.
A região é considerada ambientalmente sensível por sua biodiversidade e pela presença de diferentes ecossistemas marinhos e costeiros. O próprio Ibama já havia destacado, em decisões anteriores, preocupações relacionadas a fauna, manguezais, unidades de conservação, terras indígenas e outros ambientes potencialmente afetados por acidentes com petróleo.
Quanto a Petrobras pretende investir na Margem Equatorial?
A Foz do Amazonas faz parte de uma estratégia mais ampla da Petrobras para ampliar o conhecimento sobre a Margem Equatorial.
De acordo com o plano de negócios da companhia para 2026–2030, estão previstos US$ 2,5 bilhões de investimentos na Margem Equatorial e a perfuração de 15 novos poços na região durante os cinco anos.
A Petrobras considera a Margem Equatorial estratégica também porque a produção do pré-sal deverá entrar gradualmente em uma fase de declínio no futuro.
A companhia avalia, portanto, novas fronteiras exploratórias para tentar manter sua capacidade de produção e reposição de reservas.
A descoberta ocorre em uma região de grande interesse internacional
O interesse pela Foz do Amazonas não se limita à Petrobras.
A região faz parte de uma área mais ampla da Margem Equatorial que desperta atenção internacional depois das grandes descobertas de petróleo realizadas nos últimos anos na Guiana e no Suriname.
Empresas internacionais também possuem áreas exploratórias na região brasileira.
A Chevron, por exemplo, iniciou atividades de pesquisa sísmica em blocos da Bacia da Foz do Amazonas. Segundo informações divulgadas pela imprensa especializada, a empresa possui nove blocos na região.
A pesquisa sísmica funciona como uma espécie de "imagem" do subsolo e permite identificar estruturas geológicas que podem apresentar características compatíveis com reservatórios de petróleo e gás.
Petrobras e Exxon também possuem áreas na região
A Petrobras também mantém parcerias com a ExxonMobil em dez blocos da Margem Equatorial na Bacia da Foz do Amazonas.
Segundo informações divulgadas pela Brasil Energia, os contratos foram adquiridos no leilão da ANP de 2025 e possuem participação de 50% para cada empresa.
A movimentação mostra que o resultado do Morpho passou a ser observado não apenas como uma descoberta isolada, mas como um dado relevante para a avaliação do potencial geológico de toda a região.
O que acontece depois dos três poços?
A sequência deverá ser aproximadamente esta:
1. Conclusão do Morpho
A Petrobras finaliza a perfuração e coleta os dados geológicos e de fluidos necessários.
2. Mobilização da nova sonda
A companhia prepara a unidade que será utilizada na próxima etapa.
3. Perfuração de Manga
O primeiro poço adicional deverá fornecer informações para ampliar o conhecimento sobre o reservatório.
4. Perfuração de Crotalus
5. Perfuração do Morpho Extensão/PAD Morpho
6. Integração dos dados
A Petrobras reunirá informações de todos os poços para delimitar a descoberta.
7. Avaliação econômica
Somente depois será possível determinar se existe uma acumulação com características suficientes para justificar um futuro projeto de produção.
Não significa produção imediata
Um dos principais pontos para entender a notícia é que perfuração exploratória não é o mesmo que produção comercial.
Mesmo que os novos poços confirmem a presença de petróleo, ainda serão necessários estudos, avaliações técnicas, definição de reservas, análise econômica, planejamento de desenvolvimento, licenciamento específico e infraestrutura para uma eventual produção.
A Petrobras ainda precisa descobrir quanto petróleo existe e quanto dele pode ser produzido de maneira técnica e economicamente viável.
Uma decisão que pode mudar o tamanho da aposta na região
O resultado dos três novos poços será acompanhado de perto pelo setor de petróleo porque poderá indicar se a descoberta do Morpho representa uma acumulação localizada ou parte de um sistema petrolífero de maior dimensão.
A Petrobras já afirma que a Margem Equatorial é uma nova fronteira exploratória estratégica e prevê investimentos de bilhões de dólares na região.
Ao mesmo tempo, órgãos ambientais e o Ministério Público continuam acompanhando os impactos e as condições de segurança das operações.
Assim, a próxima etapa na Foz do Amazonas terá duas dimensões simultâneas: de um lado, a busca por informações que possam confirmar o potencial econômico da descoberta; de outro, a necessidade de cumprir as exigências ambientais e demonstrar que a atividade pode ser realizada dentro das condições estabelecidas no licenciamento.
Em resumo
A Petrobras pretende enviar uma sonda para a Foz do Amazonas em janeiro de 2027 para avançar na perfuração de três novos poços no bloco FZA-M-59. Os alvos são Manga, Crotalus e Morpho Extensão/PAD Morpho. A autorização foi concedida pelo Ibama depois da descoberta de hidrocarbonetos no poço Morpho.
O objetivo principal será delimitar o reservatório, estimar seu tamanho, conhecer melhor a qualidade e o volume do petróleo e verificar a viabilidade comercial da descoberta.
A operação poderá representar um novo capítulo na exploração da Margem Equatorial, mas ainda não representa o início da produção comercial de petróleo na Foz do Amazonas. O resultado dos novos poços será determinante para saber qual será o próximo passo da Petrobras na região.
Fontes consultadas: Reuters, Petrobras, Ibama, Agência iNFRA, CNN Brasil e Brasil Energia.